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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

" STATE OF PLAY" SOCRÁTICO

João Lemos Esteves, 12.07.09

 

Até que ponto o poder político democrático se pode tornar refém do poder económico? Em que medida os interesses privados capturam sem dó, nem piedade o interesse público? Poderão os jornalistas exercer livremente a sua actividade, vinculados em primeira linha à verdade, sendo os órgãos de informação detidos por grandes grupos económicos mais ou menos próximos do Governo? - três questões que dão o mote a um filme em exibição nas salas de cinema portuguesas e que conta com a magnífica interpretação de Russel Crowe (como sempre!), um Ben Affleck muito razoável (num estilo diferente) e uma revelação deveras agradável (Rachel McAdams). O filme (State of play, com a terrível tradução para " Ligações Perigosas", título português falta de criatividade, já que é banalíssimo e traz à memória outros filmes de qualidade duvidosa) não é brilhante - mas é contagiante. Não pretende ser um ensaio ou uma crítica política corrosiva  - mas apela à reflexão sobre os limites fácticos de actuação do poder político, mesmo nas áreas consideradas de soberania, como a segurança.

 

Sendo certo que o filme espelha a realidade norte-americana, não pude deixar de traçar o paralelo com a conjuntura política portuguesa. Não pude - e não posso - deixar de reconhecer na trama alguns aspectos que (noutra escala)  marcaram a era socrática. Agora que o socratismo entrou na fase da agonia continuada, o PS começa a perceber que os últimos quatro anos serão sempre uma nódoa na sua história - e que vai ser muito difícil afirmar a sua matriz de esquerda e de partido crível. 

 

De facto, nunca na história da democracia portuguesa, houve uma subjugação tão evidente, tão descarada ao poder económico privado por parte de um Governo, esperando, em troca, o seu apoio incondicional. O curioso é verificar que o PS não se renovou - são exactamente as mesmas figuras que, na década de 90, se tentaram "coligara" a Belmiro de Azevedo,  levando MArcelo Rebelo de Sousa a identificar o PS como sendo o PArtido SONAE (e que por isso ,por tanta turbulência passou - e, hoje, muitos lhe reconhecem razão). O PS pensa que é dono do regime democrático , que basta mexer uma peça aqui, outra acolá, para se manter no poder e silenciar a oposição.  

 

Basta pensar no negócio da PT. Obviamente, houve uma intromissão do governo no negócio entre privados. Estimulou quando achava que retitraria dividendos políticos; condicionou, quando viu que afinal, as complicações seiam maiores que os ganhos. E os empresários? E a sociedade civil? Praticamente, não existem. Tudo passa pelo Estado (ou devo dizer tudo passa pelo Largo do Rato?). Quando as empresas dependem totalmente do Estado, quando os seus altos quadros são figuras que dominam ou dominaram os aparelhos partidários (estou a pensar em Jorge Coelho, mas não quero nominalizar),já não se prossegue o interesse do Estado - mas sim o interesse partidário. Perde-se, assim, um elemento essencial para a existência daquele como comunidade política - a autoridade democrática. Não há sociedade politicamente organizada, sem autoridade do Estado. O interesse de todos fica refém do interesse de alguns. Com todas as perversidades e todos os perigos que daí resultam. Logo, a questão da relação entre o Estado e a economia não é uma questão económica - é um problema que se relaciona com os próprios limites e capacidade de sobrevivência da democracia.  Consciência crítica exige-se mais do que nunca.  

   

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