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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

Ringue de Ideias do PSD: Joana Barata Lopes

PsicoConvidado, 26.03.10

 

Num momento em que me é pedido que reflicta sobre o estado do PSD, a primeira coisa que penso é no tanto que haveria a dizer e no quão simplista será, forçosamente, esta reflexão. No entanto, e porque é sempre um prazer este exercício de pensarmos aquilo que nos é querido, agradeço ao Psicolaranja esta oportunidade de partilhar um ou outro pensamento sobre o nosso PSD.

 

O PSD ESTÁ EM CRISE?

Em primeiro lugar, dizer que, para mim, o problema do PSD não tem que ver com falta de ideologia ou valores-base. Para mim, o valor-base do PSD são as pessoas e não creio que essa definição, forçosamente simplista, tenha tanto de vazio assim. Porque dizer que o valor-base do PSD são as pessoas é dizer que este é o Partido Político que acredita na capacidade dos portugueses. E porque acredita nessa capacidade, o PSD é o único Partido Político português que verdadeiramente defende o valor da Meritocracia. E se o PSD acredita nas pessoas, não lhes mente por interesses ou caprichos eleitoralistas, embrulhados numa complacência que, tantas vezes, mais não é que uma escandalosa falta de respeito pelos eleitores. E um Partido que acredita nas pessoas respeita-as, respeita a sua liberdade e dignidade individual.

 

E esta fórmula quase absurdamente simplista é a única que vai de encontro à solução para a crise que afecta, efectivamente, os portugueses.

É que na minha perspectiva a verdadeira raiz da crise é aquela que resulta da mudança de paradigmas, da destruição de conceitos e correlações que constituíam alicerces inquestionáveis da sociedade. Fenómenos como os “Novos Pobres” são exemplos crassos daquilo que constitui o problema mais grave que esta crise trouxe. Neste novo conceito de sociedade que se desenha, ser instruído ou ter emprego, por exemplo, não significa que não se passe fome. E se a correlação entre trabalho/segurança/dignidade era uma garantia adquirida, não bastaria já o desemprego, que o próprio emprego pode ser garante de coisa nenhuma.

E é nesta destruição de correlações sociais estruturais que eram garantias, que reside o verdadeiro problema da crise e aquilo que a vai enraizando.

 

Não terá sido por acaso que o PSD foi o primeiro Partido a denunciar esta situação dos Novos Pobres e o único que, no meu entender, compreende realmente a gravidade estrutural que ela representa para os portugueses. Ou, ainda mais básico, o Partido que denunciou que, naturalmente, a crise social dos portugueses e a exposição da fragilidade dos valores que nos sustentam enquanto sociedade, nada tem a ver com respostas às questões que alguns gostam de chamar fracturantes. Porque o que verdadeiramente fractura a sociedade e a vida dos portugueses, não é o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas, por exemplo, a eminência de uma pobreza que não foi possível prever.

E acho ainda mais. Que se o PSD tem como valor-base isto de acreditar nas pessoas, estes tempos de governação socialista são os tempos em que nos diferenciamos, demarcamos e afirmamos mais que nunca naquilo que nos caracteriza enquanto Partido.

Episódios como o Estatuto do Aluno ou a “pseudo” Avaliação de Professores, são exemplo da mais elementar política do facilitismo e de promoção do demérito, e caracterizam de forma inequívoca o rumo da governação Sócrates.

Se a isto juntarmos (e ficando só pela rama!) o desperdício diário de tantos euros dos fundos comunitários, que eram dos portugueses por direito e que estes não puderam usar para construir as suas próprias soluções, tantas vezes apenas por uma escandalosa falta de responsabilidade política, então a demarcação entre PS e PSD é claríssima.

Na base, porque o PSD acredita nos portugueses. E respeita-os.

O problema é que, se com tudo isto, o PSD não conseguiu afirmar-se ou demarcar-se e apresentar-se como solução, algo tem de estar a correr inegavelmente mal.

 

Sabemos que a verdadeira mensagem não é aquilo que dizemos, mas aquilo que o interlocutor escuta. E o PSD não só não conseguiu passar a sua mensagem, como deixou que a teoria “PSD-não-tem-valores-porque-não-consegue-responder-em-uníssono-a-temas-fracturantes-como-o-casamento-entre-pessoas-do-mesmo-sexo” ganhasse consistência e fosse entendida pelos portugueses como uma “deriva ideológica”. O PSD não conseguiu ser, verdadeiramente, o PSD.

PORQUÊ? O PSD DEIXOU DE ACREDITAR EM SI

Admito que seja possível formular milhares de teorias que expliquem o que vai mal no PSD. Para mim, a principal razão é que o PSD parece ter deixado de acreditar em si próprio. E, continuamente, tem passado essa imagem para os portugueses. A imagem de um Partido pouco seguro de si. A imagem de um Partido envergonhado. A Política de cabeça baixa.

E essa imagem começa a ser propagada e ganha força, desde logo, na postura que os próprios políticos e dirigentes partidários adoptam quando se fala dessa “classe política”. Como quem pede desculpa. E quão mal irão as coisas quando é o próprio partido político e os seus dirigentes que parecem sentir vergonha de o ser?

Juntando a isso, claro, esta “moda” de aversão ao conceito “estrutura” ou “estrutura partidária”. E o PSD nisso, mais que qualquer outro partido, parece sempre disposto a adoptar um ar contristado e a fazer um Mea Culpa por coisa nenhuma.

Devo dizer que o que a mim me causa verdadeira aversão é não só consentirmos, enquanto Partido, na afirmação desta “moda” mas, pior, sermos causa activa da sua propagação.

 

A “estrutura partidária” é o conjunto de pessoas que, livremente, escolheu servir a sociedade militando num Partido Político em cujos valores acredita. Pessoas que tiram do seu tempo para dedicarem ao partido que, acreditam, é aquele que melhor servirá a causa pública e os portugueses. E eu, tal como muitos outros pontinhos na estrutura, tenho vergonha de cada vez que um dirigente partidário baixa a cabeça e se envergonha da actividade política porque essa é “a moda”. Essa “estrutura” é a rede que suporta, executa e prossegue, dia-a-dia, a política social-democrata. Nas Associações, nas Juntas e nas Câmaras, no poder ou na oposição, é a “estrutura” que conquista verdadeiramente o lugar do PSD no país. E é a guardiã primeira do Partido Social Democrata. Se não nos respeitarmos, quem respeitará?!

E cabe ao Partido, aos seus dirigentes e à dita “estrutura”, trabalhar incansavelmente para fazerem de si os melhores preparados para servir a causa pública. Porque isso é aquilo que os portugueses devem poder esperar de um Partido Político.

Em resumo (e é tanto o que ficou por dizer!), não creio que o PSD padeça de uma deriva ideológica mas padece, isso sim, de uma grave crise de amor-próprio.

 

Em dia de Eleições Directas, é evidente que votarei no candidato que, a meu ver, será verdadeiramente capaz de recapturar o PSD desta forma cabisbaixa de entender a Política e o Partido.

Votarei Pedro Passos Coelho porque acredito que só ele reúne as características que permitirão ao PSD acabar com essa crise de amor-próprio que, a continuar, nos destruirá.

Mas é verdade que o objectivo desta reflexão, desta partilha, não é o da campanha política por este ou aquele candidato. Porque o que importa lembrar é que o PSD representa um valor em si mesmo.

E caminhando para o final desta troca de pensamentos, dizer que é naturalmente fácil entender que o nosso carácter heterogéneo e interclassista dificulta certas respostas uníssonas. Mas a verdade é que é exactamente essa heterogeneidade que nos caracteriza enquanto Partido que nos permite ser solução e resposta para tantas pessoas com características tão diferentes. E esse é o nosso activo mais precioso.

Que discutamos todos juntos directrizes e formas de execução. Estatutos e esquemas de funcionamento. Que se debata, que se proponha, que se vote e que todos tenham alguma coisa a dizer. Porque isso é também e tanto a essência de se ser social-democrata. E que cada um de nós, militantes e dirigentes do PSD, não cometa nunca o erro gravíssimo de confundir União com Unicidade.

 

Termino este pequeno texto com uma referência muito especial à JSD. E pela JSD corro o risco de ser tomada por pouco humilde ou de ferir até

algumas susceptibilidades. É que a JSD não faz política cabisbaixa. E se a JSD é absolutamente indispensável ao Partido, não é porque a vivacidade e a energia da juventude permite saltar e gritar durante mais tempo. É pela capacidade de entrega. É, sobretudo, pela convicção na causa e na missão que se prossegue e se defende. O brilho nos olhos que torna a JSD incansável mas, mais importante, que chega directamente às pessoas e as conquista.

 

E esse brilho e essa forma não são uma característica exclusiva que se detém dos 14 aos 30 anos (até porque não falta, por um lado, quem dos 14 aos 30 nunca deteve tal característica ou quem, por outro lado e felizmente, tenha muito mais de 30 anos e nunca a tenha perdido). Que se vista a camisola, enrole o cachecol e segure a bandeira. E que se olhe as pessoas de frente.

Gandhi dizia, “SÊ A MUDANÇA QUE QUERES VER NO MUNDO.”

Os portugueses acreditam. Quando nós acreditarmos também.

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