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PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

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O lado paranóico da política

It's been a hard day's night - Entre os Rios 10 anos depois

Essi Silva, 04.03.11

 

Lembro-me bem daquele dia. De ver as pessoas a chorar. O desespero. As lágrimas.

Maior do que a tristeza de perder entes queridos, a população sofreu com a dor de perder, para sempre os seus entes, já que a maioria dos corpos nunca foi recuperada. Além do motorista e dos 52 passageiros que seguiam na excursão, a queda da ponte atirou para o rio mais três automóveis ligeiros, cada um com dois ocupantes. Um total de 59 vítimas, das quais 36 continuam desaparecidas, já que apenas 23 corpos acabaram por ser resgatados.

 

Não deveria ter sido assim. Dez anos depois, a principal via que ligaria Castelo de Paiva ao centro de Penafiel e que reduziria a distância percorrida a 30 minutos do Porto continua sem passar do papel. O resultado resume-se às fábricas que continuam a fechar, o desemprego que atinge os 20 por cento, o dobro da taxa nacional.

 

Hoje, a ponte que assegura a passagem sobre o rio entre Castelo de Paiva e Entre-os-Rios foi construída, a escassos metros da nova Hintze Ribeiro, especificamente a pensar no IC35. O projecto previa que a nova rodovia dispensasse os automobilistas de terem que percorrer os 13 quilómetros que separam Entre-os-Rios do centro de Penafiel, onde o acesso ao Porto é garantido pela A4, pela velhinha EN 106. Claramente sobrelotada, esta estrada já levou à morte de oito pessoas nos últimos três anos.

 

E sem estradas também não há médicos que se resignem a fixar-se ali. Os hospitais mais próximos, em Penafiel e em Santa Maria da Feira, ficam a uma hora ou mais de distância, dependendo da hora.

 

As promessas dos governantes, que por 59 mortos se dignaram a prestar atenção a uma terra que o Estado esquecera, ficaram mais uma vez esquecidas como um livro abandonado abraçado por pó.

 

A culpa morreu solteira. A justiça primeiro culpara causas naturais, as inúmeras cheias desse inverno, depois culpara os técnicos, por fim absolvera a mão humana e resignara-se às forças da natureza. uns dizem que o processo foi manipulado, outros que as regras foram cumpridas.


De qualquer dos modos, vidas perderam-se.

Deixo-vos como sugestão esta reportagem, um pedaço do horror que jamais será esquecido.

 

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