Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

PSICOLARANJA

O lado paranóico da política

Dia da República...

Hugo Carneiro, 07.10.12

"Hoje celebrou-se a República, Viva, Viva - dizia o Povo!"


A expressão bem que poderia ser o slogan de um livro de história publicado pelo Regime. Mas, se assim fosse, estaria a léguas de distância dos tempos em que vivemos.
Portugal vive hoje amordaçado por uma culpa que tem e que não tem. Portugal tem a culpa de se ter demitido da participação, tanta foi a luxúria que o Regime permitiu e que viciou a libido dos «humanos portugueses» durante gerações. Foram os direitos adquiridos, as pensões ou reformas aos 30 anos de trabalho e 50 de idade, as férias no Algarve ou em Puntacana, os carros, as casas, as mobílias, uma Banca fulgurantemente "emprestadora", os juros baixos, a beleza dos salões de festas da Europa onde nos deambulávamos sem saber o que nos esperava. Durante décadas os portugueses viveram, com culpa, anestesiados, ausentes da participação, permitindo que os desvarios que concluímos hoje tenham acontecido. Não foi um erro, dois erros ou mais que os portugueses não viram ou não repudiaram. Foram inúmeros e durante vários governos. Mas a culpa dos portugueses foi só essa, não terem participado. Isto porque a democracia exigia que estivessem alerta, até durante a noite ou quando chegasse o dia dos fiéis defuntos das Finanças. Não foram os portugueses que construíram o "mensalão" do BPN ou do BPP - este que já ninguém fala. Mas, também não foram os portugueses que quiseram o TGV, que levou a chorudas indemnizações, não foram os portugueses que quiseram a privatização da EDP (bastião da energia descobridora da nação), não quiseram a privatização da ANA, dos CTT, da TAP... Não quiseram os portugueses uma troika que lhes disseram ser obrigatória, porque o contrário seria a miséria e a fome.
No meio disto tudo, a justiça fraquejou. Continuam os criminosos de colarinho branco à solta, os tribunais vivem, infelizmente, sob a suspeita de controlo ou de tutela de grupos de interesses ocultos, o RSI continua a ser dado a quem não quer trabalhar e a imagética do dia da República é essa pobre mulher, desesperada, porque perdeu a liberdade. Vive em democracia, quer gritar e não a deixam. Quer apenas dizer que é mentira afirmarem que vivemos em liberdade. Alguém que tem de viver depois de uma vida de trabalho com 200 euros não é livre. É uma pessoa subjugada, enxovalhada, menorizada, cuspida, maltratada, explorada, escravizada. Por detrás dessa senhora que grita pela República que os pais lhe prometeram encontra-se um rosto anónimo mas heróico. Esse rosto é o do filho que se compadece com a miséria deste país e que tem a iniciativa, heróica, de salvar a sua mãe que vive com 200 euros. O filho, esse, deve estar desorientado, sem saber se poderá ajudar sempre, porque alguém lhe disse que o desemprego ia aumentar no próximo ano ou que ele tinha de emigrar, afastando-se da pobre mulher sua mãe.

No meio de tudo isto o livro do Regime proclama: "Hoje celebrou-se a República, Viva, Viva - dizia o Povo!"


Alguns costumam dizer que a história que se escreve é a dos heróis e vencedores, nunca a dos perdedores. Mas será que isto quer dizer que a história que se vai escrever é a da China, do Brasil ou da Índia? Será que o sofrimento a que o povo republicano português foi sujeito não tem direito a um lugar na história porque simplesmente é perdedor? Perdeu o rendimento, mas mais do que isso perdeu a dignidade, a respeitabilidade, perdeu a honra e a liberdade. Sim, perdeu a liberdade.

A República, lamentavelmente, chegou a isto...

Pelo caminho, os partidos políticos, esses sim, culpados em muito mais, teimam em manter a mesma receita, a mesma «deméritocracia» do sistema, promovendo o maniqueísmo e o caciquismo e esquecendo a «res publica». Já não interessa mais o «bem comum». Isso é, para muitos, poeira dos livros antigos...


E a República vai nisto...

Mas, alguém exclama, como se fosse poeta, que "o povo português é o melhor do mundo"...


Que bem isso sabe à alma e ao coração depois de termos entregue a roupa do corpo, ou de essa senhora chorar copiosamente porque vive ou «invive» com 200 euros por mês. 

O que resta desta República?

Apenas isto - o anónimo cidadão que salva o que resta dessa pobre mulher desesperada e que tem a virtude de ser seu filho.

Louvado seja esse jovem.

Louvados sejam todos os jovens que apenas querem ser portugueses e ajudar este país e louvados sejam os seus antepassados heróicos...


Perdeu-se o respeito pelas instituições, porque para isso contribuíram aquelas e porque se perderam os valores.

Hoje interessa, nesta república, o «bem próprio», não o «bem comum».
Perdeu-se a «dignidade da Pessoa Humana» e concretizou-se um golpe constitucional silencioso. 


Dizem-nos: "é o único caminho" - nem que ele seja o do precipício. A questão já não é a de pagar dívida, porque essa deve ser sempre paga. A questão é a alma das pessoas que foi aprisionada e escravizada. Perdeu-se a ligação entre o indivíduo e a comunidade. E quando isso sucede, então já não é a República.

Hoje não devíamos celebrar a República, porque ela desapareceu!

 

A República

Beatriz Ferreira, 05.10.10

No dia 4 de Outubro de 1910, a bandeira nacional que hoje conhecemos foi hasteada nos paços do concelho de Almada, tomado de assalto por 10 mil pessoas e a banda da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense tocou pela primeira vez em todo o país A Portuguesa. Por isso, na minha cidade celebra-se com especial fervor esse momento. Durante os festejos, ouvi estas palavras, escritas e lidas por um rapaz de 18 anos:

 

“Uma história depende totalmente do modo como esta é contada. Durante cem anos, apresentou-se a nossa monarquia como um modelo político inútil e inimigo do povo, sendo incapaz de governar e de resolver os problemas do país, afundando-o em “jogos mesquinhos de interesses”. Mas a nossa 1º República também não os soube resolver.

 

Portugal vivia um clima de grande instabilidade e foi nesse contexto que a República nasceu, não para servir os interesses de certos e determinados grupos sociais mas sim os interesses de uma nação. Contudo, devo lembrar que ninguém governa inocentemente. Aquele que acaba por ter razão, começa por parecer estar errado e ser prejudicial. Mas quem terá razão? Só se saberá mais tarde. Entretanto, estamos condenados a actuar a crédito na esperança de obter a absolvição da História.

 

A política pode ser realmente justa nos períodos de maior calma da História; mas, nos seus pontos críticos de viragem, não há outra regra possível que não seja a antiga regra que diz que os fins justificam os meios. A História mostra-nos que até a própria Igreja a usava quando via a sua existência ameaçada: deixavam de vigorar os mandamentos da moral, pois o objectivo da unidade santificava todos os meios, quer estes fossem a astúcia, a traição, a violência, a prisão ou a morte. Pois a ordem em função da comunidade existia e o indivíduo devia ser sacrificado ao bem comum.

 

Os primeiros anos desta jovem República não foram fáceis e apenas trouxeram sangue, lágrimas, medo e suor. Contudo, é com alegria e solenidade que comemoramos esta data tão especial na nossa História. Devemos o 5 de Outubro a todos os Homens e Mulheres que escolheram a esperança em vez do medo, lutando pelos seus sonhos e pelo seu país. (...)

 

(...) Podemos ser uma República democrática jovem mas chegou a altura de se reafirmar – e passar às novas gerações – aquela ideia nobre, aquela promessa de que todos são iguais, de que todos são livres e de que todos merecem uma oportunidade de tentarem obter a sua felicidade. Isto porque aqui, em Portugal, na nossa República Democrática, cada um desenha e projecta o seu próprio futuro.”

 

Hugo Marques

Não deixem de passar por lá!

Elsa Picão, 11.08.10

 

A Cordoaria Nacional recebe desde Junho uma magnífica exposição sobre o centenário da República.

 

Ocupando todo o espaço da Cordoaria Nacional é longa, a viagem, pelo tempo e espaços da História desde o período que antecede a implantação da I República.

 

Ao longo do percurso, levados por ruas, praças, edifícios, ouvem-se tiros, escutam-se gritos e multidões em protesto, cruzamo-nos com os soldados portugueses nas trincheiras da I Guerra Mundial, atravessamos o Atlântico com Sacadura Cabral e Gago Coutinho. O esforço de documentação através de vídeos, filmes de época, fotografias, cartazes, recortes de jornais é recompensado pela sensação de viajarmos no tempo.

 

A exposição “Viva a República” é de entrada livre e estará aberta até ao próximo mês de Outubro.

 

Nesta imperdível viagem pelos últimos 100 da História de Portugal, lamento apenas, que não haja qualquer suporte escrito ou áudio em línguas estrangeiras. Numa altura do ano em que tantos turistas visitam Lisboa é, de facto, uma pena, que ao passarem pela Cordoaria Nacional lhes seja difícil apreender mais, ou ter um primeiro contacto com a História do país que visitam.